Este não é um artigo para romantizar o amor entre pessoas negras. Aqui falaremos de maneira mais objetiva sobre o assunto e iremos passear por alguns pontos a fim de tentar decifrar como o amor preto é interpretado socialmente.
Por muitos anos nós fomos ensinados que o amor, o sentir o friozinho na barriga, era coisa de pessoas de pele mais clara e traços mais finos. Comédias românticas, filmes de amor, novelas brasileiras, streaming, enfim…muitos desses veículos ainda hoje privilegiam, em maior quantidade, casais de pele clara como os protagonistas das novelas noturnas, dos filmes e tramas. Alguns ainda continuam até a reproduzir os mesmos estereótipos sociais.
Há 20 anos temos a mesma referência de casal preto – você sabe de quem estou falando – que já estão há bastante tempo dentro dessa narrativa e até hoje não vimos mais exemplos de configurações de casais que compartilhem desse mesmo espaço, sendo que este está cada vez mais próximo da terceira idade. É importante ressaltar que eles não são a única configuração possível de amor preto, apesar do trabalho que fazem, seria importante termos múltiplas grandes referências.
É necessário entender que a televisão não somente conta uma história, ela também dita narrativas. Quando temos sempre a mesma referência de casal preto no nosso subconsciente, talvez isso queira mostrar que as produções audiovisuais tentam criar uma narrativa de que aquilo é o ‘excepcional’ e que todos os outros tipos de casal são o normal.
Dados históricos
O IBGE diz que 70% das pessoas negras se casam entre elas, mesmo assim existe uma disparidade entre o que se acontece na prática e o que se noticia. Bem como, essa porcentagem de matrimônios esteja muito mais ligada a questões sociais.
Em outras palavras: esses 70% de pessoas, se casam não porque eles tem um casal preto como referência de amor preto, mas basicamente porque é o meio social em que eles se encontram. Veja por exemplo, que relacionamentos interraciais supostamente tendem a ser mais comuns quando a pessoa negra da relação ascende socialmente, sendo então esse amor basicamente atrelado ao poder aquisitivo, pois cabe lembrar que apesar das pessoas negras representarem a maioria da população brasileira, elas não representam o grupo com maior quantidade de dinheiro no bolso.
Algumas pesquisas sugerem que o “dinheiro preto” (o dinheiro que está na mão de pessoas negras) dura em média 6 horas na mão das pessoas negras (Brooke Stephens, 1996). Depois que você recebe o seu salário, você paga o aluguel (cujo dono da casa não é negro), você paga a energia (que é concessão de uma empresa francesa, em alguns estados brasileiros), você compra comida (o agro é pop, tech, é tudo… menos de maioria preta). Enfim, acho que até aqui você entendeu. Somos 56% da população, mas 75% dos mais pobres do país e 64% dos desempregados, de acordo com a Você/SA.
Portanto, para entender os impactos e as dinâmicas de relacionamento entre pessoas negras, é importante passarmos por muitos temas que “aparentemente” não têm nada a ver, mas quando nos aprofundamos, entendemos que eles impactam completamente nas nossas maneiras de se relacionar. Está tudo conectado.
O amor preto é necessário?
Muito se fala de amor preto e por vezes nós ficamos felizes ao ver casais pretos de mãos dadas no shopping e nos lugares conquistando e ascendendo socialmente. Mas lá no âmago do relacionar-se, esse amor preto é realmente necessário? O que o nosso subconsciente entende sobre amor e como ele enxerga o amor preto?
O filósofo e escritor Dr. Renato Noguera diz que “o amor não tem cor, mas as pessoas têm!”. Fazendo uma breve análise dessa frase, é possível tirar como um dos entendimentos, que em suma o amor pode acontecer em toda e qualquer configuração de raça, embora ele talvez seja entendido e vivenciado de maneira diferente quando a configuração é entre pessoas negras.
Existe um mito da solidão, um receio que pessoas negras tem de ficar sozinhas e amar outra pessoa negra pode significar ter que enxergar aquela pessoa como algo diferente do que muitos de nós fomos acostumados. Por exemplo, se você é uma pessoa negra, cresceu com sua mãe te servindo comida, lavando suas roupas, trabalhando fora e cuidando da família, então provavelmente fica mais fácil ter a visão da mulher negra como aquela feita para servir. Enquanto que a não negra, sempre esteve em posições de ser servida, tanto nas produções cinematográficas, como na vida real de muitos que conhecemos.
Considerar que essa configuração foi colocada no nosso subconsciente, pode ser a chave para demonstrar o quão necessário é percebermos essas diferenças e fazermos o exercício de espelhamento, onde a gente começa a colocar a pessoa negra em um lugar mais humano e menos de serviço. Vivemos em uma sociedade que nos ensina a nos odiar desde cedo. Então quando eu olho para outra pessoa negra e a reconheço como digna de amor, estou, por tabela, curando o ódio que me ensinaram a sentir de mim mesmo. O amor preto é a tecnologia de sobrevivência mais sofisticada que nossos ancestrais nos deixaram.
O sistema
Já falamos aqui que a maioria do país é de pessoas negras, mas não somos maioria nos elencos das produções artísticas, não somos maioria nos cargos de direção das grandes empresas, nem maioria dos consumidores de produtos de luxo, por exemplo. E no amor? Será que o sistema tem medo do amor preto? Será que por isso não vemos a celebração pública dos relacionamentos afrocentrados nas produções artísticas? Será que por isso a maioria dos artistas negros continuam assumindo papéis de traficantes? Será que colocar-nos nas tramas como empresários e investidores, causaria alguma mudança social?
Lembro que cresci assistindo “O Sítio do Picapau Amarelo”, e lembro de momentos onde a Dona Benta (uma preta retinta) era xingada pela Emília com termos bem pesados que eu quero evitar de reproduzir aqui. Acontece que as obras de Monteiro Lobato ainda estão livres por todo o país e nas favelas, não houve nenhuma discussão no sentido de proibir as obras dele, reparar o problema causado por ele, onde foi ensinado a gerações a tolerar e reproduzir insultos raciais. Assim é o sistema que tanto diz que ama as pessoas negras.
Mudando de exemplo, pense nesse caso: você se esforçou bastante para entrar na faculdade, você foi o primeiro filho a conseguir entrar, você sente um orgulho absurdo e imenso. Chegou em casa com o resultado, ligou para contar para pessoa que você se relaciona, ela te parabenizou mas disse: ah, meu avô estudou nessa faculdade, meu pai, meus tios e meus 5 irmãos também. Quando seu parceiro não entende que sua vitória é também a vitória de três gerações atrás, há aí um abismo. Casos como esse são bem comuns de acontecerem em relacionamentos iterraciais.
O amor entre pessoa negras permite o descanso, contribui com a evolução de pensamentos de unidade e de ajuda mútua. Significa não precisar ficar explicando o óbvio. O amor entre pessoas negras significa economia de energia vital, essa energia que poderia ser usada para a construção do nosso império, está diariamente sendo gasta em ocasiões como o exemplo citado, onde temos que explicar nossas dores e torcer para que nossos afetos, chefes ou amizades entendam.
Mas se as pessoas negras já não são as que estão nos outros espaços de poder, é possível afirmar que também não querem que ocupemos os campos afetivos nos relacionando com pessoas iguais a nós, porque isso significaria o crescimento estratégico da nossa comunidade e colocaria em risco aqueles que estão no poder. Em palavras simples: o sistema prefere continuar trazendo o mito da solidão da mulher negra ou a hipersexualização do homem negro, porque isso continua sempre nos mantendo isolados e andando em círculos. Continuam lembrando que existimos só em um mês específico (quando lembram, né…) e continuam achando o máximo fazer o mínimo por nós.
Conclusão
Precisamos de uma biodiversidade de afetos: pretos retintos, afetos LGBTQIA+, diversas configurações familiares. O amor preto só será plenamente livre quando não for mais uma ‘exceção’ cinematográfica, mas uma norma cotidiana. O Denga Love surgiu dessa percepção, surgiu do pensamento de que a gente não vai crescer como comunidade enquanto só ficarmos falando das nossas dores e tentando lutar pelo mínimo. Muito disso não depende só da nossa comunidade, mas começa com ela se organizando.
Para viver o amor preto precisamos pensar em tudo o que está ao redor e em como incluímos o nosso povo preto. O amor preto é importante, necessário e potente. Mas é necessário entender que amor afrocentrado não é só beijar uma pessoa preta em praça pública, ele é construído em bases sólidas e fortificadas, é moldado e forjado nos valores de uma comunidade que se ajuda e que luta por sua própria emancipação constante. Precisamos começar a construir os nossos castelos, isso começa com famílias pretas sólidas, unidas e comprometidas em deixar legado.
Sobre o autor: Fillipe Dornelas é Fundador da Denga Love, formado em Computação e há pouco mais de 3 anos largou tudo para criar a Denga após ver que a desiguldade no mercado de tecnologia era gritante. A Denga Love surgiu como uma solução para que pessoas negras tenham seu espaço para trocas afetivas mais justas. A Denga é muito mais do que um aplicativo de relacionamento, é uma plataforma de conexão entre a comunidade negra brasileira e mundial.
Revisão: Este texto teve a revisão feita pelo Professor Dr. Renato Noguera, que fez comentários importantes e dicas de fontes. Deixo aqui meus mais sinceros agradecimentos.
A opiniões pessoais neste texto não representam necessariamente a opinião da Denga Love e seus colaboradores.